quarta-feira, 1 de agosto de 2012

L.F. Riesemberg



No Bordel, depois da meia-noite


Mais um homem adentra a alcova. Aguardava-o uma rapariga de cabelos louros, usando peças de lingerie e uma echarpe vermelha. 
    O homem a observa, interessa-se e despeja algumas moedas de prata sobre o leito. Ela fecha a porta e o casal fica a sós no ambiente à meia luz.
    — Quanto tempo eu tenho?
    A dama conta as moedas e, enquanto as guarda na gaveta da penteadeira, ainda sem olhar nos olhos do novo cliente, responde com indiferença: 
    — A noite toda.
    O homem sorri, livra-se do chapéu e dos sapatos, e atira-se sobre os lençóis.
    Deitado, percebe que o vinho já consumido faz efeito. Continua a não tirar os olhos da moça e, enquanto ela despe-se, ele começa a prestar mais atenção naquela jovem senhora. O rosto, apesar de maquiado, não disfarça a palidez e as olheiras. Observando com cuidado, havia alguns pequenos hematomas sobre seu corpo decadente e flácido. Os olhos azuis vidrados sugerem exprimir não exatamente tristeza, nem vergonha. Parecem simplesmente ter perdido um brilho de outrora, o que os deixou turvos, sem emoção, sem vida. 
    O rapaz não pôde deixar de sentir certa compaixão pela rapariga e culpa por estar ali, o que é terrível para a profissão dela. E essa constatação o deprimia ainda mais.
    Alimentando-se com aqueles pensamentos a respeito da moça, resolveu experimentar algo diferente naquela noite. 
    — O que você faz?
    A moça, ainda sem muitas alterações na face e tirando a última peça de roupa, responde baixo:
    — Tudo o que o senhor quiser.
    O rapaz ajeita-se na cama, recostando-se sobre as almofadas, e a chama para que deite-se ao seu lado.
    — Então eu só quero ouvir. Quero que conte-me sua história, de como veio parar neste lugar. 
    Depois de recusas dela e alguma insistência dele, a moça chora. Ela não deveria conversar com um estranho, mas também não quer causar problemas para a casa. Em um beco sem saída, resolve, como todos os dias, submeter-se à realidade da situação e aceita satisfazer a vontade do homem deitado na cama. 
    Assim começa o relato.
    Quando menina, vivi em uma luxuosa mansão na cidade. Órfã de mãe, sentia-me fortemente presa aos laços paternos. Meu pai sempre procurava para mim o melhor partido para um futuro casamento.
    Entre os bailes que dava em casa, conheci um homem muito belo, por quem fiquei completamente caída. Não me disse seu nome, ou de onde vinha. Nada! Apenas me enfeitiçou pelo seu olhar, e tudo o que eu queria era estar sempre com ele, só com ele.
    — Ah, sempre os homens! Esses lobos desgraçados — interrompeu o cliente.
    Desculpando-se pela intromissão inoportuna, pediu que a dama continuasse a história.
    Nunca soube de onde veio. Simplesmente apareceu.
    Sem precisar de palavras, compreendi toda sua paixão, todo o desejo no olhar daquela criatura perfeita. E na minha febre adolescente isso também me fez desejá-lo, cada vez mais.       
    Sem que meu pai desconfiasse, comecei a encontrá-lo fora de casa. Passei a mentir só para estar junto dele e sentir a força de seus braços envolvendo meu corpo.
    Nem ao menos tive culpa por estar perdendo a inocência de uma forma tão vil, tão em desacordo com o que minha mãezinha me ensinou, que Deus a tenha.
    Quando eu estava com aquele homem, nada mais me importava ...
    Ele beijava-me e a cada beijo os arrepios estremeciam-me. No terceiro encontro eu já estava totalmente entregue àquele misterioso rapaz. Às vezes ele beijava-me na nuca, no pescoço, sempre levando-me ao delírio. 
    Quando eu já estava perdidamente apaixonada, fiquei a ponto de aceitar o pedido mais sujo que ele fizesse...
    A primeira vez foi no clube de campo. Era uma festa de aniversário, e em certo momento consegui ficar sozinha com ele. Estávamos tendo mais um momento de carícias e foi nessa hora que ele tentou, e eu não pude resistir. Seu beijo era tão doce, e ele todo era tão encantador! Causava-me arrepios seu hálito morno em minha pele, e o diabo permanecia ali, cheirando-me, mordiscando... Eu quase desmaiava de prazer, e nem notei quando ele colocou os dentes, nem quando meu sangue quente começou a escorrer para sua boca. 
    Não saberia dizer por quanto tempo ele permaneceu ali, sugando-me, enquanto eu estava paralisada, num misto de prazer e dor, até que ele se saciasse antes que eu perdesse os sentidos.  
    Neste ponto do relato o homem que ouvia a história salta os olhos e começa a prestar ainda mais atenção à história.
    Naquele dia deixou-me quase inconsciente e foi embora, sem dizer uma palavra. Aquilo que ele fez deixou-me um pouco assustada na hora, mas depois senti-me estranhamente bem, mais presa a ele. 
    Nos dias seguintes fiquei um pouco abatida, talvez por querê-lo outra vez ao meu lado, talvez por ele ter levado um pouco de minha energia. Esforcei-me para evitar a visita de um médico, fingindo saúde e disfarçando as marcas do pescoço.
    Depois de uma semana, quando já havia ardido em febre à sua espera, e sem poder contar a ninguém a minha história de amor louco, ele surgiu no meio da noite em minha janela, olhando-me fixamente através do vitral. Era muito sedutor, e não tive dúvida alguma: deixei que entrasse, e permiti que se saciasse mais uma vez.
     Desta vez a dor foi menor, e pude aproveitar mais as sensações indescritíveis que me proporcionava. Enquanto ele tinha os dentes em mim era como se fôssemos um só, e era assim que eu queria estar: ligada a ele, para todo o sempre.
    Depois disso, passei a deixar a janela aberta todas as noites. Ele vinha, envolvia-me e juntos deleitávamo-nos em meu quarto até muito tarde. Se meu pescoço doía, ele procurava outras partes do meu frágil corpo para saciar-se, e cada nova descoberta era um prazer imenso para ambos. Foram noites mágicas aquelas...
    Durante os dias, eu já não tinha mais fome. E por passar as noites em claro, passei a dormir de dia. Na época meu pai viajava e não estava lá para notar minha palidez, minhas olheiras, minhas unhas roxas, minha fraqueza. 
    Porém, certa noite em que recebi o visitante e já não tomava os devidos cuidados para não ser flagrada, meu pai apareceu de surpresa no quarto. Já devia desconfiar de que algo ia errado com sua filha.
    Pobrezinho...
     Ficou totalmente perturbado ao ver-me, em sua própria casa, nos braços de um homem. Eu costumava ver sua bonequinha, e num piscar de olhos era uma corrompida. Furioso, passou a blasfemar e a me bater enquanto perguntava quem era o bastardo covarde que acabava de fugir pela janela. “Desgraçou-me a vida”, ele gritava, aos prantos, dizendo que me matava por isso.
    Apesar de amar meu pai, não pude ouvir aquelas ofensas, e defendi com unhas e dentes o homem que tanto me encantava. Em minha ânsia adolescente, reneguei tudo o que eu recebera da minha família, inclusive meu nome, meu sangue.
    Foi a noite em que deixei minha casa
    Desamparada, sozinha pelas ruas, fui à procura daquele a quem eu havia entregue meu coração. Mas ele me decepcionou. Encontrei-o ao lado de outra e ainda assim fui até lá, humilhei-me, caí de joelhos, disse que tinha desistido da vida por ele...
    Tudo em vão.
    Fui deixada à própria sorte, abatida, fraca, sem a mesma beleza de antes, sem um lar onde viver. Bati de porta em porta, procurando uma casa para ficar, até ser acolhida pela gentil senhora dona desta casa de meninas. Senti um pouco de repulsa no início, mas já me acostumei aqui e com toda essa gente que vem atrás do pouco que resta da minha juventude e beleza.
    O cliente continuou calado depois do final da história, pensando em tudo o que acabara de ouvir.
    Agora diga-me, continuou a rapariga. O que devo pensar de um ser que faz isso com outra pessoa?Por que ele não me matou logo no começo? Aquele covarde...
     Eu sei, uma grande tola é o que fui. Então que ao menos eu sirva de exemplo para outras meninas ingênuas que caem na conversa desse tipo de monstro...    
    O homem ao seu lado continuava pensativo.
    —Olha, moça, você não deveria ficar contando essas coisas para qualquer estranho, sabia disso?
— Por que? Só não me atirei da ponte para não ir direto ao inferno, porque falta apenas isso para coroar minha desgraça. E você acha que realmente me preocupo por não acreditarem em mim? Por dizerem-me louca?    
    O homem a tomou em seus braços e sussurrou aos seus ouvidos. Isso não me importa, madame. Mas me preocupo com outra coisa...        
    Enquanto afagava os cabelos da dama, ele lambeu as pontas dos próprios caninos e chegou mais perto de seu pescoço.
     ...é com nossa reputação, minha cara.