sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ÓPERA DOS POMBOS SEM DESTINO



Eu moro no sótão onde 
os pombos morrem
Eu deixo a janela aberta
e deixo que eles venham 
morrer a meus pés
Eles entram voando e me olham
com seus olhos tristes de pombo
Como eu posso ser feliz com todos esses pombos mortos
abandonados por Deus?

Gostava quando eles 
se chocavam contra o para-brisa
Pombos desgovernados sempre me fascinaram
Esses pombos com destino certo
eles me deixam com os olhos cheios de lágrimas
vez ou outra um avião passa no céu
e os pombos sonham com lugares nunca visitados

Um dia os pombos desaparecerão
terão voado para algum lugar inatingível
não haverá  mais pombos
e alguém irá contar histórias sobre pombos
os seus cadáveres espalhados no chão do meu sótão
receberão visitas apaixonadas
mas pra mim o que vai ficar
será a lembrança dos pombos na minha caixa de correio
pombos que se recusaram saber o caminho
pombos que Deus há de acolher
pombos dos quais sempre vou me lembrar
ouvindo ópera no sótão
meu sótão de pombos sem destino


Mário Bortolotto