quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CONVALESÇO

convalesço
dos males que me infligi
das noites que não dormi
mulheres que em vão amei

convalesço
da vertigem que fiz de mim
do cavalo que quis meu fim
vida que desesperei

restabeleço contato
com tudo que quis pra mim
com o tanto que um dia eu fui
com o tal que desaprendi

restabeleço contudo
com tato tempo e afeto
com nada chamado pressa
nem nunca de outra de horror

com calma amanheço
da delirante noite do ópio
da nebulosa treva tenebrosa
do uivo lancinante do demente

amanheço
com a boca seca da miséria
com o lábio rachado do pavor
com o cinzeiro entupido de visões 
amanheço com calma


CHACAL




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

TANGO


Ainda danço tango 

com teus ternos 

guardados no armário

Ainda faço amor 

no mesmo ritmo 

das lembranças 

de tua língua



Ele não voltou para pegar suas roupas 

e eu não joguei nada fora: nem as gravatas,

nem a flor seca que ainda teima em espalhar 

um cheiro de despedida pelo quarto.

Deixei tudo lá, para me servir de choro e castigo,

para me fazer rastejar, sozinha, de culpa e desejo.

Ai, a ausência que nada preenche:

Nem os dedos, nem a vontade que surge quando não peço, 

nem esta pouca vergonha que me faz gemer seu nome

 enquanto me arrasto pelo chão.

Nem o tango que ouço enquanto umedeço.

Nem a saudade me revirando por dentro.

Nada preenche:

A fome.

...e a lembrança de suas mãos desenhando

 em meu corpo todos los pasos de amor.



Mariza lourenço


domingo, 26 de agosto de 2012

TARDE


à sombra da mangueira 
em flor 
sonho antigos dezembros 
enquanto 
por mim mesma 
espero 
olhando esse banco 
vazio 

e não venho







Márcia maia                                                                                                                                                                                                            

sábado, 25 de agosto de 2012

CEGO DE SI

Sofro quando meço no outro,
o que vejo faltar em mim,
preciso o que dele é dono,
por estar medido em mim.

Sou fronteira inabitável,
um olho cego de si,
que se perde,
na miragem de um conhecedor
que tudo mede
mas não é medido.

Sou medida de confins
não caibo nos sonhos
que me fiz.
Nego serem meus,
nego ser quem os quis,
o outro me ilude, 
é ele que me sonha. 



Marcos tavares 






segunda-feira, 20 de agosto de 2012

DECLARAÇÃO DE AMOR

Sabe...
Não tenho muito que dizer, já disse muitas coisas. Deixei aberto o que tem está vivo em mim. Tenho sons na alma que são capazes de gritar tão alto quanto seja possível e por todo canto que eu olho, vejo o quanto isto é tão teu, o tanto que isto é tão valioso dentro de mim.

Sabe...
Não estou vendo nada além de você e está tão lindo de olhar que chega a doer, chega a dar medo de não ser real, mesmo sabendo que isto está só nos meus sonhos.
Esta coisa não tem juízo, não tem plano, não sabe explicar por que não consegue se enxergar sem você, não sabe o que é sorrir a não ser se estiver pensando em você.

Sabe...
Muitos podem ser os caminhos e eles se mostrarão, eu sei que este amor pode ser tortuoso, pode ferir. Sei que pode ser atrevido, difícil de lidar, mas é infinitamente lindo de tocar.
Os nossos lábios podem se tocar, nossa pele se misturar num abraço e os braços se enroscarem deixando brincos se perderem pelos caminhos e serem deixados como rastro, como uma foto de um amor que viveu ou como um lampejo de um sorriso que se permitiu expressar.

Sabe...
Tenho ficado aqui horas a pensar, vendo este sentir que não mede, ás vezes esboço um choro que vem da alma, que vem queimando, vai levando tudo, dá até, desespero se olhar. Mas toma conta de tudo e nada diz, apenas cala a incerteza de viver, e diz ser o melhor de mim. Eu não sei! Mas sei que é tudo que eu quero que exista; é tudo que quero viver, mesmo que falte você,

Sabe...
É uma coisa estranha, como pode?! O que move este sentimento? Seria o desafio? O desejo insano de unir pessoas que vivem momentos diferentes? Sei lá!  A razão é pratica. Tem suas normas, define suas regras e ameaça se desobedecê-la. Mas enfrento o risco, podem me dizer o que é correto sentir, mas não podem dizer pelo que devo lutar,

Sabe...
Fico ouvindo musicas, reinventado minha história, pondo você em lembranças que não existiram, vibrando o tempo todo neste amor, que eu não sei se é justo ou humano, se fará doer ou se me tirará os pés do chão, mas já não me importo. Não é leviano, não parece maltratar, me conforta quando estou perdido. É meu, me deixa sentir, foi Deus que me deu, ele saberá o quanto poderá doer ou me fazer feliz.

Sabe...
Às vezes, fico olhando fotos, lembrando seu cheiro e fico me imaginando beijando o seu corpo todo, acariciando cada parte escondida, revelando cada mistério que rodeia minha imaginação, confortando sua cabeça sobre meus ombros, enquanto sussurro versos de amor e falo do quanto é seguro estar nos meus braços, mesmo que seja por tão pouco tempo, mas que só seja importante apenas estar ali, envolvido no calor dos nossos corpos.

Sabe...
Conto os segundos, esperando você passar por mim, por qualquer motivo bobo dizer palavras sem muito sentido. Só por dizer. Tocar uma parte qualquer do seu corpo, apenas pra sentir o quanto vivo me sinto. Não sei explicar. O tempo talvez me ensine a te esquecer, mas eu não queria. Queria apenas aprender a ser alguém que você sentisse falta, como eu sinto agora, que sentisse vontade de falar coisas sem motivos, engraçadas, bobas, mas maravilhadas pelos olhos de encanto que você tem em tudo.

Sabe...

Amo e nunca amei tanto, Não sei te amar com medida, é tudo que sei por enquanto. Estou descobrindo o quanto é esse tanto, dia a dia, como um forasteiro diante de uma montanha, como um menino diante do oceano. Não depende do que aprendi andando pela vida saber se haverá um nascer do dia, assim como não sei como começou. Acontece agora diante de mim. Não seria maior se tivesse um dia sido planejado. Não é tão distante, cheio de fronteiras impossíveis. É amor que invade quem vive, é vida que vibra quando se permite existir. Isto é, apenas eu aqui, esfolando meu coração nas pontas destas palavras, nada mais. É uma alegria que não tem por que, apenas existe por você existir em mim.


Marcos tavares de souza


domingo, 19 de agosto de 2012

A AMEAÇA DOS URUBUS

                                                                  


Naquela mesa da calçada, como eles faziam sempre as sextas, Mauro e mais dois colegas de trabalho tomavam sua cervejinha ao final do expediente de trabalho, no mesmo bar de sempre. Naquele dia, porém, notaram a presença de um urubu que os rodeava, vinha ao chão, voava até o telhado e plainava ao redor, como se tivesse de olho em algum resto de comida.
Tentaram espantar o bicho por várias vezes, mas era sempre inútil, voltava a ficar próximo deles. Chamaram o dono do bar e pediram uma explicação para aquele acontecimento estranho. O senhor anda tratando este urubu com restos de alimentos? Perguntou um dos colegas- Não senhor! É a primeira vez que eu vejo este animal por aqui. Respondeu.  Após pagarem a conta e fazerem diversas piadas com o ocorrido, foram cada um para seu lado.
Mauro descia a rua rumo ao metrô quando teve a impressão de ser seguido, olhou para trás e viu o pássaro negro a rodeá-lo. Achou engraçado e se lembrou das piadas com os amigos. Após vários passos largos e uma corridinha, olhou novamente para trás e viu os olhos fixos do carniceiro dirigindo-se a ele.
Sentiu um friozinho na espinha, como se fosse ameaçado, mas caindo em si pensou: Agora dei pra ter medo de urubu? era só o que me faltava! Entrou na estação central e pegou o trem, rumo a sua casa, ria sozinho sentado ao lado de outros passageiros lembrando-se do urubu.
A noite em sua casa, após o jantar, sentou-se no sofá e passeava com o controle da televisão, quando sua mulher, puxando assunto, indagou sobre o seu dia.
-Você não acredita que um urubu ficou rodeando nossa mesa no bar e me seguiu a até a estação do metrô hoje! Acredita?
- Vai ver você esta morrendo e ele esta esperando o corpo cair e apodrecer por ai, para ele se alimentar. Ria debochadamente.
-Engraçadinha! Como ele sabe se eu vou morrer. Ainda mais, ser esquecido por ai e apodrecer? Resmungou.
-Não sei, mas eles desconfiam, é o seu instinto. Voltou a rir. 
Uma semana se passou, novamente eles estão sentados na mesma mesa daquele bar, o urubu começa a sobrevoar o lugar, em poucos minutos, começam a aparecer outros pássaros iguais, parecem estar com raiva, começam a buzinar e olhar fixos para Mauro, desta vez os colegas ignoram as piadas, resolvem ir embora, pagam a conta e sai cada um para o seu lado, nada dizem um ao outro, parecem assustados. Mauro começa a se preocupar, os urubus começam a se multiplicar, sobrevoam pelo seu caminho, fazem voos rasantes, olham fixos para os seus olhos, parecem emitir raiva, os olhos de alguns parecem vermelhos, os olhos de outros parecem famintos, Mauro corre, desta vez, desesperadamente, entra na estação do metrô, seu coração esta acelerado, seu fôlego começa a faltar, senta e descansa , olha pela vidraça, vê alguns se debaterem no vidro das janelas da estação e de repente somem pelo céu que escurecia. Entra no trem, senta na poltrona, pálido,
começa a tremer, anda de um vagão ao outro, não consegue se acalmar, os passageiros notam a aflição, uma senhora começa a falar em nome de Jesus algumas palavras, ele se irrita, corre entre os vagões, desce uma estação antes de casa, sai correndo pelas ruas, chega a sua casa, pega umas roupas e começa a fazer uma mala, sua mulher assustada pergunta o que esta acontecendo, Ele diz: São os urubus! Eles querem me pegar, preciso fugir.
Anita, a sua mulher, pega o telefone, liga para sua sogra, conta o ocorrido, faz umas perguntas, desliga e volta a fazer outra ligação, desta vez para o farmacêutico, pede conselho, pergunta se existe algum tipo de remédio para acalmá-lo, desliga e vai até a porta, abre e olha para o céu, nada vê. Vai para o fogão, põe agua para ferver para fazer um chá de camomila com maracujá.
Mauro enche um copo de conhaque, toma, enche outro, engole, enche mais um, receia, mas toma. Vai até as janelas olha para o céu, grita como um lunático, Cadê vocês seus filhos duma puta! Apareçam, seus desgraçados, vou matar um a um!  Senta no sofá, começa a chorar e rir ao mesmo tempo. Anita chega com o chá, senta ao seu lado, nunca tinha visto Mauro naquele estado, tenta conversar.
-Fica calmo Amor! Toma esse chá, vai passar... Ela apoia a sua cabeça sobre os seus ombros, conta sobre o seu dia, sobre o filho, sobre a vizinha, tenta puxar assunto, tenta entretê-lo com outros pensamentos. Mauro vai se acalmando, acalmando...  Até que relaxa e cochila no colo da mulher.  Durante o domingo, Anita, conversa bastante com ele sobre o ocorrido, dá o endereço de uma amiga que se formou psiquiatra e que ia fazer um 
preço mais camarada, depois de falar com ela ao telefone e ouvir dela o alivio que bastaria um simples remédio pra ele parar com esta loucura. Mauro se diz propenso a visita-la, resolvem esquecer o assunto e falar dos planos para o mês seguinte, que seria férias. O fim de semana passa...
Novamente é sexta feira, nenhum dos colegas de trabalho toca no assunto, não vão ao bar, vão direto para casa. Mauro pega um táxi, não vai de metrô. Passa na padaria perto de casa, toma uma cervejinha, compra pão e frios para o lanche, desce a rua calmamente,refeito do susto da semana passada, tomando um comprimido de revotril ao dia.
Gira o trinco da porta, entra, vai até a cozinha, põe os frios na geladeira, abre uma cervejinha, senta no sofá, liga a tv, procura por um canal de esporte, aliviado, esboça um sorriso e se sente seguro no conforto do seu lar.Meia hora depois, sente falta da mulher e do filho, não ouve barulho nenhum dentro de casa, Não estão em casa, deduz! Começa ligar para o celular dela, ouve o aparelho tocar debaixo da almofada, imagina que devam estar na vizinha! Vai até lá, toca a campainha, pergunta por eles, não estão, fica preocupado.
Volta para casa, anda pelos cômodos, vê peças de roupas espalhadas sobre a cama, não encontra a mala em cima do guarda roupa, vai até o quarto do filho, não encontra o pôster pendurado do Batman, se desespera. Vai até a cozinha, encontra um bilhete escrito: Eles voltaram, fuja!


Marcos tavares de souza,
é fã do urubu malandro,
(desenho animado do pica-pau)
















quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O HOMEM HERDARÁ A TERRA

O que será de nós quando os representantes do Deus carrasco, aqui na terra, tomarem as cadeiras de Brasília para si e de lá decidirem o que é certo e errado de acordo com seu julgamento e preconceito.
Quem vai conseguir viver em uma nova idade média? Quem vai ter o direito de ter liberdade de crença e não ser perseguido por esses intolerantes fanáticos religiosos quando eles tiverem o poder.

Por favor, nos acudam, 

não vote num evangélico.
Abaixo aos pecadores arrependidos de mentira.
Exploradores da fé dos desesperados.
Fim dos mercenários religiosos.

Liberdade sexual.
Liberdade de expressão.
Liberdade de pensamento.
Liberdade de comportamento e crença.
Liberdade para ter liberdade.
  
                                                                                                                            Saiba mais                                                                                               
                                                                                                                           
Li este texto num e-mail outro dia e achei que seria de bom tamanho, dar meu pitaco. Não estou interessado em atacar nenhuma crença ou religião, quero entender um pouco mais sobre a liberdade que esta sendo requisitada neste texto, embora eu seja contrário a religiões que pregam o medo na vida e felicidade na morte.  Ou se tem liberdade ou não! Não vamos ser hipócritas a ponto de tentar restringir a liberdade alheia em detrimento a nossa. É direito do outro, ter o direito de pensar o que quiser! Queremos impedir que, existam pessoas que pensem e atuem neste mundo diferente de nós, porque isso nos ameaça. Quero sempre lutar por um mundo, que EU aprove! este é o discurso verdadeiro.
Não foi a igreja da idade média que impôs a santa inquisição, foi o consentimento do povo que apoiou a carnificina religiosa, cruzando os braços diante do fato.
Não foi Hitler e suas ideias que detonou a       segunda guerra, mas sim, grande parte da população que o apoiava e via nele um herói nacional, um representante da segregação racial que explodia dentro de cada um e esperavam por alguém que fosse capaz de acender o estopim.
Movimentos da história da civilização sempre encontraram partidários sedentos pela represália ao livre pensar, sem serem devidamente conscientes do que faziam: olhavam o mundo pela sua ótica e determinavam o certo e o errado. Nunca houve liberdade total e irrestrita. Haverá sempre o poder estabelecido e seus representantes que nele atuam que ditarão os caminhos da história, pela visão restrita do seu ideal de mundo e seu poder de persuasão ou truculência.
A parte da população que se sentir ultrajada e ameaçada pelo poder da igreja evangélica e afiliadas, saiba que o mundo sempre teve diferentes formas de influência no comando e sempre foi refém de uma maioria que se impôs pelo seu ideal de sociedade.
O mundo não será diferente porque agora temos amplo acesso a informação e facilidade de expor nossa opinião e encontrar quem dela compartilhe, o mundo será sempre um palco de sobrevivência e esforço para que possamos desempenhar nossa capacidade de adaptação a ele.
Que venham os evangélicos, já que elegemos palhaços, cantores de circo, esportistas renomados e tantos outros cidadãos que sempre estiveram à margem da politica e que não sabemos com que intenção eles decidiram mudar de carreira.


Estamos falando de liberdade aqui e eu respeito o direito de qualquer pessoa se sentir no direito de ser e fazer o quer que seja. Mas, também é meu direito ter um pé atrás com os acontecimentos que envolvam nossos representantes e o poder que herdarão, mas não faço critica antes de poderem provar com seu trabalho o porquê da escolha politica, antes de tudo, acredito no seu caráter, só não acredito na maquina que os conduzirá, essa é a sua verdadeira inimiga, aliás, nossa.

Saiba mais sobre esta entrevista.  


Marcos tavares de souza.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

O PREÇO


                                                                  CONTO

Primeiro, a luz que vinha da janela, depois o relógio que tiquetaqueava como uma britadeira, depois ela, a desgraçada e incompreensível dor de cabeça. – Onde estou? Que porra de lugar é este? Olhei ao redor com os olhos pesando uma tonelada. Nada entendi. Procurei meu celular pelo chão da sala, com as mãos estendidas até onde elas podiam ir; debruçado sobre o sofá. Caralho que cachaça foi essa! Cadê os meus comprimidos, procurei nos bolsos, nada! Procurei na carteira, nada! Fiquei ali por uns instantes, tentando lembrar o que tinha que fazer naquele dia e querendo entender o que tinha acontecido no dia interior.
Puta que pariu! Tô mijado! Quem me trouxe até aqui? Onde tem comprimido nesta porra? Levantei, dei uns passos até a cozinha, havia um tanque cheio de roupas sujas na lavanderia, joguei tudo no chão e comecei a mijar. Vendo por uma pequena janela a altura do prédio, devia estar no vigésimo andar.
Voltei para sala cambaleando, dei uns passos até o quarto e vi deitada sobre a cama, a mulher mais linda do mundo! Puta que pariu , será que eu comi esta daí? Fui mais perto para ver de perto aquela escultura talhada a dedo. Bom dia, disse ela com uma voz mais linda ainda, dormiu bem? Ela me olhou com uns olhos verdes que brilhavam tanto que irradiava luz pelo quarto meio na penumbra ainda, por causa da janela ainda fechada.
-Sim, muito bem. Respondi meio acanhado pelo cheiro da roupa mijada, Desculpe, não me lembro de muita coisa ontem, você tem aqui paracetamol? Perguntei.
Não, infelizmente não tenho o habito de tomar remédio, posso fazer um coquetel de legumes e frutas que é tiro e queda pra você, você quer?
-Sim, respondi meio frustrado.
Ela levantou apenas com a calcinha de renda minúscula, revelando a consistência da pele das coxas de uma menina no ápice do seu corpo. Foi até a cozinha e preparou uma jarra da poderosa receita que se tratava de um segredo de família. Trouxe até mim com um sorriso no rosto, deixando parte dos seios fartos à mostra.
-Tenho um moletom e uma camiseta no armário, vou pega-los enquanto você toma banho. Quase que ordenou, delicadamente.
Puta que pariu! Que mulher do caralho é essa! Tentava lembrar como eu tinha conhecido e conseguido comer uma mulher desta enquanto tomava banho e sentia a combinação de cheiro de sache de laranja com lavanda perfumando o banheiro extremamente limpo e organizado.
Sai do banheiro já melhor, o suco verde já estava me recuperando, a cabeça doía bem menos, o corpo estava mais disposto e fortalecido, parei uns segundos em frente ao espelho e lá fiquei. Engraçado! Parece que existe um lapso de memória gigante em mim.
Da sala vinha um barulho de secador de cabelos e um cheiro forte de Listerine que ela usava pra desinfetar o sofá e tirar o cheiro da urina.
Usava um shortinho minúsculo e uma camiseta deixando a mostra o umbigo e um abdome sarado, fiquei mais perto para ver se era tudo de verdade. Desculpe por isso, eu tenho esse problema quando bebo demais. Falei meio envergonhado, por que isso é coisa de criança.
-Tudo bem, Rodrigo, eu entendo estas coisas. Respondeu sorridente.
-Você pode me dizer seu nome, desculpe, mas não me lembro.
-Isabela.
-Pode me dizer como nos conhecemos, Ontem?
-Não foi ontem, já nos conhecemos á algum tempo,
-Desculpe, mas não estou entendendo, uma mulher como você é inesquecível, Eu não me lembro de ter te conhecido e não ter me apaixonado. Fui galanteador.
-Ah! É assim mesmo, esse é o efeito da droga.
-Droga, que droga! Você me drogou ontem à noite?
-Não, não sou eu que faço este serviço, eu apenas estudo o comportamento do usuário.
-Não sou usuário de nada, nem maconha eu fumei na vida.
-Sim, entendo! Não é culpa sua, todos dizem a mesma coisa.
-Outros, que outros, o que esta acontecendo, me fala.
-Bem, não posso explicar ainda, espera os caras chegarem.
-Que caras? Assustado, indaguei.
-Fica calmo, logo você vai saber. Quer café? Eu acabei de coar.
-Não obrigado, preciso de um cigarro, sabe onde esta meu paletó?
-Desculpe. Cigarro não se fuma aqui, tem que fumar na sacada. O seu paletó esta pendurado naquela cadeira do canto. Falou apontando para uma direção.
Fui até a sacada e comecei a fumar, enquanto punha as ideias no lugar, mas que porra aconteceu meu deus! De que droga esta gostosa esta falando? Ouvi a campainha tocar e ela caminhar até a porta para abrir para dois caras entrarem. São eles! pensei. Ela apontou para mim e os caras vieram na minha direção.
-Podemos conversar seu Rodrigo,
-Sim, caminhei até a sala e sentamos ao redor de uma mesa de mármore. Por favor, me contem o que esta acontecendo.
-Bem, o senhor nos pagou uma boa quantia, para ter essa experiência, estamos aqui para sabermos como foi o resultado.
-Experiência, que experiência, não me lembro de nada! Paguei, quanto que eu paguei?
-Calma, seu Rodrigo, vamos seguir o combinado.
Isabela chegou com uma travessa de café, mais gostosa e linda do que nunca. Era a única coisa que não me fazia surtar ali, serviu os cafés e deixava a mostra um pedaço de calcinha saltar pelo minúsculo shortinho.
-Contem tudo, por favor. Implorei.
-Bem, estamos testando uma nova pílula que faz você passar pelos próximos três meses que você viverá sem experimentar o sofrimento que ele poderia causar. Você veio até nós e quis experimentar a medicação. Esta pílula tem a capacidade de tirar todas as emoções ruins que deveriam acontecer com a pessoa, independente de qualquer acontecimento, começando pelo momento que antevia o fato. Ela faz com que todos estes últimos 90 dias possam ser recontados e sentidos sem emoção nenhuma, é uma pílula muito poderosa, estamos aqui exatamente para contar a sua história e documentar a sua reação.
-Caralho, que cassete! O que vocês vão me contar? Meu filho morreu, minha mulher me traiu, minha filha fugiu com o guarda da rua, minha empresa faliu? Eu perdi meus pais, algum irmão? Por favor, conte-me logo.
-Meu caro Rodrigo, veja bem, qualquer noticia que eu lhe der, não vai dar a você nenhuma reação de sofrimento, você ainda esta sobre o efeito da ressaca do remédio.  Essa reação de espanto e ansiedade é comum, por isso nós trouxemos a outra parte do tratamento, a pílula do dia seguinte, o senhor precisa tomá-la imediatamente, faz parte do tratamento, é indispensável para que o tratamento fique completo. Você tinha com você apenas a primeira pílula, a outra está em nossas mãos.
Isabela, por favor, nos traga agua, ordenou a ela.
Assim que tomei aquela capsula gigante e gelatinosa, acordei no meio do cemitério assistindo meu próprio enterro, enquanto Isabela me contava como tinha sido meus últimos três meses de cativeiro até o momento da bala do revolver atravessar minha cabeça. 



marcos tavares de souza,
tem umas merdas na cabeça
que é foda!


sábado, 11 de agosto de 2012

CONTO DE FADAS


Pode chorar, Robert

Os últimos dias foram difíceis para Robert Pattinson. Ver sua honra e sentimentos virem a publico, após a traição de Kristen Stewart com Rupert Sanders. O vampiro mais aplaudido do cinema mundial e um dos atores mais queridinhos das adolescentes do mundo inteiro. Sinto muito meu caro Rob, mas você é humano não vampiro. Pode chorar, você pode! Assim como todos nós podemos, ainda mais se for com glamour, muitos amigos e muita grana no bolso, sem falar na repercussão que isso vai dar a sua carreira.
O galã traído pela atriz de hollywwod mais fotografada da atualidade, não menos talentosa e famosa  Bella e gosttosa (tt) Kristen Stewart, está em prantos ainda, eu estaria, se isso o consola.

Amor em alta

Rob escute, eu vou te dar um toque, aqui, com o cotovelo no balcão, depois de meia dúzia de tequilas, joga fora este celular agora e para de ligar para esta putinha, ela não te merece, você é muito pra ela, deixa ela dar pra quem ela quiser, esquece essa vagabunda. Mulher bem melhor do que ela e muito mais gostosa, mais cheirosa e muito mais decente tem aos montes por aí. Basta você triscar os dedos que elas aparecem agora, vê se te enxerga gostosão. Você é o cara!
Esse é o conselho de muitos, mas não sei se seria útil, estaríamos apenas medindo o sofrimento pelo exterior, aquilo que se passa dentro das pessoas esta muito além do externo, não é a traição que incomoda tanto, a buceta é dela, foda-se! O problema maior esta no brio, na imagem de si, na sensação de perda que fica, quando somos trocados por outra pessoa, principalmente quando a relação não tem indícios de estar se perdendo. O amor deles estava em alta, ele tinha planos de filhos, família, tinha comprado uma casa em Los Angeles e tudo mais. Isso deve doer prá caralho! Mas é a vida meu caro vampiro, bem vindo ao mundo dos humanos,







Uma simples enrabadinha


Kristen se arrependeu, não sabia que uma enrabadinha de leve ao ar livre, ia dar tanto pano pra manga, certamente deve ter sofrido um pouco também, mas cá pra nós, ela tem cara de quem não tá nem ai, bola pra frente meu caro Rob, você ainda vai encontrar alguém melhor que eu- (porque eu já encontrei alguém melhor pra mim)- fica nas entrelinhas e no silencio do pensamento esta mensagem, que está claro nela, na nossa interpretação.
O fato é que hollywood não engoliu bem esta história por parte dela, os fãs da saga crepúsculo estão se manifestando contrariamente a ela e prometeram boicotar as bilheterias no lançamento do ultimo episódio – Amanhecer, parte 02, previsto para 16 de novembro.
Traição é uma puta matéria, vende. Os relacionamentos estão sujeitos a esse destino, não é raro. Mas quando são com nossos ídolos, parece que nos sensibiliza muito mais. Pois nos leva a um desconforto inconsciente coletivo, As pessoas que admiramos sofrem como nós, que merda! Não deveriam abalar as estruturas dos nossos sonhos. O sonho de um amor eterno da princesa e do príncipe, que desejamos tanto para nossa vida e vemos que não é bem assim.

Dentro de cada um

Rob – Look at me! (olha prá mim), agora é sério, coisa de Freud e Jung, ninguém conhece o que se passa dentro de ninguém. Só conhecemos o que o outro nos deixa conhecer, aquilo que serve de troca como moeda de relacionamento humano, saiba disto!  Enquanto tiver importância e ganho, iremos ser assim, porque somos assim, não se iluda! As pessoas estão planejando coisas que não temos a menor ideia do que seja, é o mundo de cada um. O melhor que temos a fazer é entender que devemos estar sempre prontos para decepções, pois ela vai fundo, dentro da gente, muito mais que um amor ou qualquer outro sentimento positivo que nos dá felicidade por um tempo, pois é a negatividade emocional que nos fortalece. O fato é que aquilo que não nos mata nos fortalece. Afia os seus dentões e vá à caça, brother! 
Nós todos sabemos que você não vai ser capaz de perdoar, mas se caso você conseguir, vai viver sempre com um pé atrás e não valerá a pena por um sentimento que nunca mais será o mesmo. Os sentimentos amadurecem e mudam.
Não sabemos, neste momento, o que se passa dentro de você, só podemos ensaiar uma interpretação do lado de fora, mas sabemos que esta história nos fez ver que, você e a gostosinha da Bella, nos trouxeram de volta para o mundo real. Já não sonhamos tanto em ser como vocês dois, mas infelizmente, por causa da nossa imbecilidade, já estamos em busca de novos ídolos para seguir.






Marcos tavares 






quinta-feira, 9 de agosto de 2012

NOSSO HERÓI MORREU DE OVERDOSE

                                                                   Ensaio

Tenho certeza que Ayrton Senna ainda não descansa em paz, levando em conta sua trajetória de vida e de seus anseios, seu espirito, certamente não está totalmente satisfeito, deve ainda remexer no caixão, quando o ronco do motor do cortador de grama passa próximo do seu tumulo, imaginando ter algo mais a conquistar. 
Um apaixonado pelo primeiro lugar e que nos fez crer, que isto é o que importa. O resto não tem importância. Confesso que chorei, quando ele partiu. Muitos, ao meu redor também choraram, a vida é mesmo injusta! O nosso maior soldado tinha nos deixado. Aquele que defendia uma pátria e um povo angustiado pela humilhação de ser considerado inferior. A ponto de ser taxado como um povo que não é sério.

Desiquilibrado?

No meio desse povo, surgiu alguém que assombrava seus concorrentes, alguém que impunha respeito e admiração por onde passava. Ele era nosso representante oficial, aquele que carregava nas costas a imagem manchada de seus compatriotas e que nos enchia de orgulho.
Essa é a imagem que ficou na cabeça da maioria do povo Brasileiro do nosso campeão.
Mesmo Nelson Piquet, também um tri campeão, não fazia sombra à determinação irrestrita de Senna, embora Piquet, fosse considerado um arrogante. 
Mas porque esse detalhe comportamental a respeito de Nelson Piquet não foi notado em Senna? Será que fechamos os olhos para não notar o desiquilíbrio de Senna e sua insanidade notória? Será que nos deram uma imagem construída em cima de valores de determinação e luta pelos objetivos de um homem humilde, que abandonou tudo por um sonho. Seria esta a receita da mídia para nos apaixonarmos por ele? Certamente houve um equivoco, hoje, depois desta paixão, estar menos latente e doer menos, podemos dizer nossa opinião a respeito do nosso grande herói.

Temente a Deus?

Ayrton Senna se referia a Deus em grande parte das suas entrevistas, (seja lá o que seja deus) mas em tese, aprendemos que é um principio universal, uma essência interior que aponta para a igualdade entre os seres e nos une a criação, fato desconsiderado por Senna.
“Aquele que for o maior entre vocês será o menor no reino dos céus” assim consta nas escrituras, Senna não era culpado por vencer, vencia por ter competência e estratégias corretas, mas tinha dentro de si o desejo de ser melhor sempre. Queria sempre só para si, queria ser o melhor dos melhores, de todos os tempos. 

"O importante é ganhar. Tudo e sempre. Essa história que o importante é competir não passa de demagogia." - Ayrton Senna
http://www.belasmensagens.com.br/frases-ayrton-senna.php#ixzz21xCZgW20

Em seus diálogos com o invisível, o seu grande pedido era puramente egoísta e nunca universal, ele sempre pedia para ganhar e não se machucar. Ou seja, “Por favor, Deus, dê a mim os louros da conquista e preserve a minha integridade física” para que eu seja sempre um menino pidão e mimado pelo povo que me admira.
Programa Roda Viva, 1986.

Casas sobre areias!

É claro que todos nós somos assim, queremos o melhor para nós mesmos, custe o que custar.
Mas sabemos que isto é, no mínimo, uma receita que não funciona. Nosso ego é insaciável, ele nunca vai se contentar com um objetivo que nos fará provar a felicidade,no máximo poderemos receber satisfação, mais nada! Mas mesmo assim, nos enganamos com heróis que nos vingam e mostram que são nossos melhores representantes.   
O que me choca é saber como ficou distante a possibilidade de vivermos em um mundo melhor, com pessoas extremamente determinadas como Ayrton Senna, representando  modelos a seguir e admirar.


Personagens da história, como Jesus Cristo ou Francisco de Assis, que trouxeram outros discursos, contrários ao de Senna, ficam cada vez mais distantes dos nossos ideais.
Devemos construir nossas casas sobre areias, essa é a grande mensagem de Ayrton Senna e não sobre rochas que é a mensagem cristã. Isso implica dizer, que Senna lutou por uma imagem de si e não por si mesmo. Se você não entende esta diferença é porque ignora que vivemos num mundo de espelhos,onde não vemos a nós mesmos, mas sim, nossa imagem construída, refletida nos outros..
Num mundo onde as conquistas deveriam ser coletivas e universais, para que a possibilidade de sermos todos ligados ao desejo de amparar os mais fracos e dar a todos o direito de usufruir de um ambiente cada dia mais altruísta. Estamos nadando contra a corrente, não nos dando as mãos, pior, dando os ombros.

Mensagem subliminar

Senna não é culpado de nada disto, ele agiu como um ser humano, que teve oportunidade de usar suas habilidades para fazer o que fez. A sua trajetória não descreve a intenção de ser taxado de egoísta extremo. Nós é que preenchemos nosso universo, com a subliminar mensagem de que devemos ser sempre melhores que nosso próximo, pois nosso próximo é nosso concorrente.  Assim travamos uma guerra interior contra o mundo. O mundo em que todos nós habitamos e estamos cada dia mais nos espelhando em heróis que nos convencem a pensar que nosso próximo é nosso inimigo.



Marcos Tavares de Souza
acordou de ovo virado hoje

O CORPO


Todos os dias eu temo despertar,
o câncer que me habita,
dorme dentro de mim.

Ele vai me matar.
Levar os meus sentidos.
Apresentar-me ao silencio.

Ele me ameaça com sutilezas, educação.
Tomará pra si o corpo que uso e sujo
com minhas imundices

Este instrumento que animo
que tanto me serve
deitará sobre a terra, frio.
Servirá aos vermes,
será alimento de outros seres
inconscientes de si.
Assim como ficarei,
quando o câncer ceifá-lo de mim.  


Marcos tavares de souza


terça-feira, 7 de agosto de 2012

RITA APOENA

                                                   
                             






IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO



O Homem que viu o lagarto comer seu filho


Era uma noite de terça-feira, e eles viam televisão deitados na cama. Quase uma da manhã, estava quente. Ele levantou-se para tomar água. A casa silenciosa, moravam num bairro tranqüilo. Não havia ruídos,poucos carros. Ao passar pelo quarto das crianças, resolveu entrar. Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o menino mais velho, de três anos e meio. Era semelhante a um lagarto e, na penumbra, pareceu verde. Paralisado, não sabia se devia entrar e tentar assustar o animal, para que ele largasse a criança. Ou se devia recuar e pedir auxílio. Ele não sabia a força do bicho, só adivinhava que devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. E meio míope, ainda por cima. Se acendesse a luz do corredor, poderia verificar melhor que tipo de animal era. Mas não se tratava de identificar a raça e sim de salvar o menino. Ele tinha a impressão de que as duas pernas já tinham sido comidas, porque os lençóis estavam empapados de sangue. E a calça do pijama estava estraçalhada sob as garras horrendas do bicho repulsivo. Como é que uma coisa assim tinha entrado pela casa adentro? Bem que ele avisava a mulher para trancar portas. Ela esquecia, nunca usava o pega ladrão. Qualquer dia, em vez de um bicho, haveria um homem roubando tudo, a televisão colorida, o liquidificador, as coleções de livros com capas douradas, os abajures feitos com asas de borboletas, tão preciosos. Pensou em verificar as portas, se estavam trancadas. Porém, percebeu um movimento no animal, como se ele tentasse subir para a cama. Talvez tivesse comido mais um pedaço do menino. Precisava intervir. Como? Dando tapinhas nas costas do lagarto — não lagarto? Não tinha antas em casa e o cunhado sempre dizia que era coisa necessária. Nunca se sabia o que ia acontecer. Ali estava a prova. Queria ver a cara do cunhado, quando contasse. Não ia acreditar e ainda apostaria duas cervejas como tal animal não existia. Pode, um lagartão entrar em casa através de portas fechadas e comer crianças? Olhou bem. Comer crianças não era normal, nem certo. Devia ser uma visão alucinada qualquer. Não era, O bicho mastigava o que lhe pareceu um bracinho e o funcionário teve um instante d ternura ao pensar naqueles braços que o abraçavam tanto, quando chegava do emprego à noite. Urna faca de cozinha poderia ser útil? Mas quanto o bicho o deixaria se aproximar, sem perigo para ele, o homem? Tinha de impedir o lagarto de chegar à cabeça. Ao menos isso precisava salvar. Não conseguia dar um passo, sentia-se pregado à porta. Preocupava-se. Todavia não se sentia culpado. Era uma situação nova para ele. E apavorante. Como reagir diante de coisas novas e apavorantes? Não sabia. Preferia não ter visto o lagarto, encontrar a cama vazia, as roupas manchadas de sangue. Pensaria em seqüestro ou coisas assim que lia nos jornais. Seqüestro o intrigaria, uma vez que ganhava pouco mais de dois salários mínimos e não tinha acertado na loteria esportiva. Era apenas um funcionário dos correios que entregava cartas o dia todo e por isso tinha varizes nas pernas. Se gritasse, o lagarto iria embora? Continuou pensando nas coisas que podia fazer, até que a mulher chamou, uma, duas vezes. Depois ela gritou e ele recuou, sempre atento para saber quanto o bicho tinha comido do filho. À medida que recuou perdeu a visão do quarto. Sentindo-se aliviado, pelo que não via. A mulher chamava e ele pensou: o menino não chorou, não deve ter sofrido. Voltou ao quarto ainda com esperança de salvá-lo pela manhã e decidiu nada dizer à mulher. Apagaram a luz, ele se ajeitou, cochilou. Acordou sen tindo um cheiro ruim e quando abriu os olhos viu sobre seu peito a pa ta, parecida com a do lagarto. Paralisado, não sabia se devia tentar as sustar o animal, ou tentar sair da cama e pedir auxílio. Pelo peso da pa ta, o bicho devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. Aí se lembrou que tinha dois sacos de cartas a entregar, era época de Natal e havia muitos cartões das pessoas para outras pessoas dizendo que estava tudo bem, felicidades. Tinha que tirar este bicho de cima. Não, hoje não haveria entregas. Nem amanhã, por muito tempo. O lagarto estava com metade de sua perna dentro da boca.




segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Edgar Allan Poe



O Gato preto

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com toda a certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar hoje o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o de terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos. Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me com explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem. Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho, e um gato. Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiras disfarçadas. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia. Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predileto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua. A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical - envergonho-me de o confessar - para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar de uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência. Evidentemente que os meus pobres animaizinhos sentiram a transformação do meu carácter. Não só os desprezava como os tratava mal. Por Plutão, porém, ainda nutria uma certa consideração que me não deixava maltratá-lo. Quanto aos outros, não tinha escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco e até o cão, quando por acaso ou por afeição se atravessavam no meu caminho. Mas a doença tomava conta de mim - pois que doença se assemelha à do álcool? - e, por fim, até o próprio Plutão, que estava a ficar velho e, por consequência, um tanto impertinente, até o próprio Plutão começou a sentir os efeitos do meu carácter perverso. Certa noite, ao regressar a casa, completamente embriagado, de volta de um dos tugúrios da cidade, pareceu-me que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, horrorizado com a violência do meu gesto, feriu-me ligeiramente na mão com os dentes. Uma fúria dos demónios imediatamente se apossou de mim. Não me reconhecia. Dir-se-ia que a minha alma original se evolara do meu corpo num instante e uma ruindade mais do que demoníaca, saturada de Genebra, fazia estremecer cada uma das fibras do meu corpo. Tirei do bolso do colete um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pelo pescoço e, deliberadamente, arranquei-lhe um olho da órbita! Queima-me a vergonha e todo eu estremeço ao escrever esta abominável atrocidade. Quando, com a manhã, me voltou a razão, quando se dissiparam os vapores da minha noite de estúrdia, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que tinha cometido. Mas era um sentimento frágil e equívoco e o meu espírito continuava insensível. Voltei a mergulhar nos excessos, e depressa afoguei no álcool toda a recordação do ato. Entretanto, o gato curou-se lentamente. A órbita agora vazia apresentava, na verdade, um aspecto horroroso, mas o animal não aparentava qualquer sofrimento. Vagueava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Porém, restava-me ainda o suficiente do meu velho coração para me sentir agravado por esta evidente antipatia da parte de um animal que outrora tanto gostara de mim. Em breve este sentimento deu lugar à irritação. E para minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE fez de seguida a sua aparição. Deste espírito não cura a filosofia. No entanto, não estou mais certo da existência da minha alma do que do facto que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano; uma dessas indivisas faculdades primárias, ou sentimentos, que deu uma direção ao carácter do homem. Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma ação néscia ou vil, pela única razão de saber que a não devia cometer? Não temos nós uma inclinação perpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é? E digo que este espírito de perversidade surgiu para minha perda final. Foi este anseio insondável da alma por se atormentar, por oferecer violência à sua própria natureza, por fazer o mal só pelo mal, que me forçou a continuar e, finalmente, a consumar a maldade que infligi ao inofensivo animal. Certa manhã, a sangue-frio, passei-lhe um nó corredio ao pescoço e enforquei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com as lágrimas a saltarem-me dos olhos e com o mais amargo remorso no coração; enforquei-o porque sabia que me tinha tido afeição e porque sabia que não me tinha dado razão para a torpeza; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava cometendo um pecado, um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal a ponto de a colocar, se tal fosse possível, mesmo para além do alcance da infinita misericórdia do Deus Mais Piedoso e Mais Severo. Na noite do próprio dia em que este ato cruel foi perpetrado, fui acordado do sono aos gritos de «Fogo!». As cortinas da minha cama estavam em chamas; toda a casa era um braseiro. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens materiais foram destruídos, e daí em diante mergulhei no desespero. Sou superior à fraqueza de procurar estabelecer uma sequência de causa a efeito entre a atrocidade e o desastre. Limito-me, porém, a narrar uma cadeia de acontecimentos e não quero deixar nem um elo sequer incompleto. Nos dias que se sucederam ao incêndio, visitei as ruínas. As paredes, à exceção de uma, tinham abatido por completo. Esta exceção era constituída por um tabique interior, não muito espesso, que estava sensivelmente a meio da casa, e de encontro ao qual antes ficava a cabeceira da minha cama. O reboco resistira em grande parte à ação do fogo, fato que atribuo a ter sido pouco antes restaurado. Próximo desta parede juntara-se uma densa multidão e muitas pessoas pareciam estar a examinar certa zona em particular, com minúcia e grande atenção. A minha curiosidade foi despertada pelas palavras «estranho», «singular» e outras expressões semelhantes. Aproximei-me e vi, como se fora gravado em baixo revelo, sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precisão realmente espantosa. Em volta do pescoço do animal estava uma corda. Mal vi a aparição, pois nem podia pensar que doutra coisa se tratasse, o meu assombro e o meu terror foram imensos. Por fim, a reflexão veio em meu auxílio. Lembrei-me que o gato fora enforcado num jardim junto à casa. Após o alarme de incêndio, O dito jardim fora imediatamente invadido pela multidão e por alguém que deve ter cortado a corda do gato e o deve ter lançado para dentro do meu quarto, por uma janela aberta. Isto deve ter sido feito, provavelmente, com a intenção de me acordar. A queda das outras paredes tinha comprimido a vítima da minha crueldade na substância do reboco recentemente aplicado e cuja cal, combinada com as chamas e o amoníaco do cadáver, tinha produzido a imagem tal como eu a via. Tendo assim satisfeito prontamente a minha razão - que não totalmente a minha consciência - sobre o facto extraordinário atrás descrito, não deixou este, no entanto, de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do fantasma do gato, e, durante este período, voltou-me ao espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, mas que o não era. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar à minha volta, nos sórdidos tugúrios que agora frequentava com assiduidade, um outro animal da mesma espécie e bastante parecido que preenchesse o seu lugar. Uma noite, estava eu sentado meio aturdido num antro mais do que infamante, a minha atenção foi despertada por um objeto preto que repousava no topo de um dos enormes toneis de gin ou de rum que constituíam o principal mobiliário do compartimento. Havia minutos que olhava para a parte superior do tonel, e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido mais cedo do objeto que estava em cima. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um gato enorme, tão grande como Plutão e semelhante a ele em todos os aspectos menos num. Plutão não tinha sequer um único pelo branco no corpo, enquanto este gato tinha uma mancha branca, grande, mas indefinida, que lhe cobria toda a região do peito. Quando lhe toquei, imediatamente se levantou e ronronou com força, roçou-se pela minha mão, e parecia contente por tê-lo notado. Era este, pois, o animal que eu procurava. Imediatamente propus a compra ao dono, mas este nada tinha a reclamar pelo animal, nada sabia a seu respeito, nunca o tinha visto até então. Continuei a acariciá-lo, e quando me preparava para ir para casa, o animal mostrou-se disposto a acompanhar-me. Permiti que o fizesse, inclinando-me de vez em quando para o acariciar enquanto caminhava. Quando chegou a casa, adaptou-se logo e logo se tornou muito amigo da minha mulher. Pela minha parte, não tardou em surgir em mim uma antipatia por ele. Era exatamente o reverso do que eu esperava, mas, não sei como nem porque, a sua evidente ternura por mim desgostava-me e aborrecia-me. Lentamente, a pouco e pouco, esses sentimentos de desgosto e de aborrecimento transformaram-se na amargura do ódio. Evitava o animal; Um certo sentimento de vergonha e a lembrança do meu anterior ato de crueldade impediram-me de o maltratar fisicamente. Abstive-me, durante semanas, de o maltratar ou exercer sobre ele qualquer violência, mas, gradualmente, muito gradualmente, cheguei a nutrir por ele um horror indizível e a fugir silenciosamente da sua odiosa presença como do bafo da peste. O que aumentou, sem dúvida, o meu ódio pelo animal foi descobrir, na manhã do dia seguinte a tê-lo trazido para casa, que, tal como Plutão, tinha também sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, contudo, mais afeição despertou na minha mulher, que, como já disse, possuía em alto grau aquele sentimento de humanidade que fora em tempos característica minha e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e mais puros. Com a minha aversão pelo gato parecia crescer nele a sua preferência por mim. Seguia os meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer compreender ao leitor. Sempre que me sentava, enroscava-se debaixo da minha cadeira ou saltava-me para os joelhos, cobrindo-me com as suas repugnantes carícias. Se me levantava para caminhar, metia-se entre os pés e quase me fazia cair ou, fincando as suas garras compridas e aguçadas no meu roupão, trepava-me até ao peito. Em tais momentos, embora a minha vontade fosse matá-lo com uma pancada, era impedido de o fazer, em parte pela lembrança do meu crime anterior mas, principalmente, devo desde já confessá-lo, por um verdadeiro medo do animal. Este medo não era exatamente o receio de um mal físico; no entanto, é me difícil defini-lo de outro modo. Quase me envergonhava admitir - sim, mesmo aqui, nesta cela de malfeitor, eu me envergonho de admitir - que o terror e o horror que o animal me infundia se viam acrescidos de uma das fantasias mais perfeitas que é possível conceber. Minha mulher tinha-me chamado várias vezes a atenção para o aspecto da mancha de pelo branco de que já falei e que era a única diferença aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha eliminado. O leitor lembrar-se-á que esta marca, embora grande, era, originariamente, bastante indefinida, mas, gradualmente, por fases quase imperceptíveis e que durante muito tempo a minha razão lutou por rejeitar como fantasiosas, assumira, finalmente, uma rigorosa nitidez de contornos. Era agora a imagem de um objeto que me repugna mencionar, e por isso eu o odiava e temia acima de tudo, e ter-me-ia visto livre do monstro se o ousasse. Era agora a imagem de uma coisa abominável e sinistra: a imagem da forca! Oh! Lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte. Por essa altura, eu era, na verdade, um miserável maior do que toda a miséria humana. E um bruto animal cujo semelhante eu destruíra com desprezo, um bruto animal a comandar-me, a mim, um homem, feito à imagem do Altíssimo - oh! Desventura insuportável. Ah, nem de dia nem de noite, nunca, oh! Nunca mais, conheci a bênção do repouso! Durante o dia o animal não me deixava um só momento. De noite, a cada hora, quando despertava dos meus sonhos cheios de indefinível angústia, era para sentir o bafo quente daquela coisa sobre o meu rosto e o seu peso enorme, encarnação de um pesadelo que eu não tinha forças para afastar, pesando-me eternamente sobre o coração. Sob a pressão de tormentos como estes, os fracos resquícios do bem que havia em mim desapareceram. Só os pensamentos pecaminosos me eram familiares - os mais sombrios e os mais infames dos pensamentos. A tristeza do meu temperamento aumentou até se tornar em ódio a tudo e à humanidade inteira. Entretanto, a minha dedicada mulher era a vítima mais usual e paciente das súbitas, frequentes e incontroláveis explosões de fúria a que então me abandonava cegamente. Um dia acompanhou-me, por qualquer afazer doméstico, à cave do velho edifício onde a nossa pobreza nos forçava a habitar. O gato seguiu-me nas escadas íngremes e quase me derrubou, o que me exasperou até à loucura. Apoderei-me de um machado, e desvanecendo-se na minha fúria o receio infantil que até então tinha detido a minha mão, desferi um golpe sobre o animal, que seria fatal se o tivesse atingido como eu queria. Mas o golpe foi sustido diabolicamente pela mão da minha mulher. Enraivecido pela sua intromissão, libertei o braço da sua mão e enterrei-lhe o machado no crânio. Caiu morta, ali mesmo, sem um queixume. Consumado este horrível crime; entreguei-me de seguida, com toda a determinação, à tarefa de esconder o corpo. Sabia que não o podia retirar de casa, quer de dia quer de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Muitos projetos se atropelaram no meu cérebro. Em dado momento, cheguei a pensar em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los um a um pelo fogo. Noutro, decidi abrir uma cova no chão da cave. Depois pensei deitá-lo ao poço do jardim, ou metê-lo numa caixa como qualquer vulgar mercadoria e arranjar um carregador para o tirar de casa. Por fim, detive-me sobre o que considerei a melhor solução de todas. Decidi emparedá-lo na cave como, segundo as narrativas, faziam os monges da Idade Média às suas vítimas. A cave parecia convir perfeitamente aos meus intentos. As paredes não tinham sido feitas com os acabamentos do costume e, recentemente, tinham sido todas rebocadas com uma argamassa grossa que a humidade ambiente não deixara endurecer. Além do mais, numa das paredes havia uma saliência causada por uma chaminé falsa ou por uma lareira que tinha sido entaipada para se assemelhar ao resto da cave. Não duvidei que me seria fácil retirar os tijolos neste ponto, meter lá dentro o cadáver e tornar a pôr a taipa como antes, de modo que ninguém pudesse lobrigar qualquer sinal suspeito. Não me enganei nos meus cálculos. Com o auxílio de um pé-de-cabra retirei facilmente os tijolos, e depois de colocar cuidadosamente o corpo de encontro à parede interior, mantive-o naquela posição ao mesmo tempo que, com um certo trabalho, devolvia a toda a estrutura o seu aspecto primitivo. Usando de toda a precaução, procurei argamassa, areia e fibras com que preparei um reboco que se não distinguia do antigo e, com o maior cuidado, cobri os tijolos. Quando terminei, vi com satisfação que tudo estava certo. A parede não denunciava o menor sinal de ter sido mexida. Com o maior escrúpulo, apanhei do chão os resíduos. Olhei em volta, triunfante, e disse para comigo: «Aqui, pelo menos, não foi infrutífero o meu trabalho.» A seguir procurei o animal que tinha sido a causa de tanta desgraça, pois que, finalmente, tinha resolvido matá-lo. Se o tivesse encontrado naquele momento, era fatal o seu destino. Mas parecia que o astuto animal se alarmara com a violência da minha cólera anterior e evitou aparecer-me na frente, dado o meu estado de espírito. É impossível descrever ou imaginar a intensa e aprazível sensação de alívio que a ausência do detestável animal me trouxe. Não me apareceu durante toda a noite, e deste modo, pelo menos por uma noite, desde que o trouxera para casa, dormi bem e tranquilamente; sim, dormi, mesmo com o crime a pesar-me na consciência. Passaram-se o segundo e terceiro dias e o meu verdugo não aparecia. Mais uma vez respirei como um homem livre. O monstro, aterrorizado, tinha abandonado a casa para sempre! Nunca mais voltaria a vê-lo! Suprema felicidade a minha! A culpa da ação tenebrosa inquietava-me pouco. Fizeram-se alguns interrogatórios que colheram respostas satisfatórias. Fez-se inclusivamente uma busca, mas, naturalmente, nada se descobriu. Dava como certa a minha felicidade futura. No quarto dia após o crime, surgiu inesperadamente em minha casa um grupo de agentes da Polícia que procederam a uma rigorosa busca. Eu, porém, confiado na impenetrabilidade do esconderijo, não sentia qualquer embaraço. Os agentes quiseram que os acompanhasse na sua busca. Não deixaram o mínimo escaninho por investigar. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram a cave. Nem um músculo me tremeu. O meu coração batia calmamente como o coração de quem vive na inocência. Percorri a cave de ponta a ponta. De braços cruzados no peito, andava descontraído de um lado para o outro. Os agentes estavam completamente satisfeitos e prontos para partir. O júbilo do meu coração era demasiado intenso para que o pudesse suster. Ansiava por dizer pelo menos uma palavra à guisa de triunfo e para tornar duplamente evidente a sua convicção da minha inocência. - Senhores - disse por fim, quando iam a subir os degraus. - Estou satisfeito por ter dissipado as vossas suspeitas. Desejo muita saúde para todos, e um pouco mais de cortesia. A propósito, esta casa está muito bem construída (e no meu furioso desejo de dizer qualquer coisa com à-vontade, mal sabia o que estava a dizer) Direi, até, que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes... vão-se já embora, meus senhores?... Estas paredes estão solidamente ligadas. - E neste momento, por uma frenética fanfarronice, bati com força, com uma bengala que tinha na mão, na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha querida esposa. Ah!, que Deus me livre das garras do arquidemonio! Mal tinha o eco das minhas pancadas mergulhado no silêncio, quando uma voz lhes respondeu de dentro do túmulo: um gemido, a princípio abafado e entrecortado como o choro de urna criança, que depois se transformou num prolongado grito sonoro e contínuo, extremamente anormal e inumano. Um bramido, um uivo, misto de horror e de triunfo, tal como só do inferno poderia vir, provindo das gargantas conjuntas dos condenados na sua agonia e dos demónios no gozo da condenação. Seria insensato falar dos meus pensamentos. Senti-me desfalecer e encostei-me à parede da frente. Tolhidos pelo terror e pela surpresa, os agentes que subiam a escada detiveram-se por instantes. Logo a seguir, doze braços vigorosos atacavam a parede. Esta caiu de um só golpe. O cadáver, já bastante decomposto e coberto de pastas de sangue, apareceu ereto frente aos circunstantes. Sobre a cabeça, com as vermelhas fauces dilatadas e o olho solitário chispando, estava o odioso gato cuja astúcia me compelira ao crime e cuja voz delatora me entregava ao carrasco. Eu tinha emparedado o monstro no túmulo!